20111103

O Meu Peito

O meu peito é um banco de jardim
Onde me sento cansada
No trilho de uma alvorada
Que espero amanhecer

É campo de malmequeres bem-me-queres
De pétalas espreitando o sol
Num fado em dó bemol
De um imenso céu nublado

O meu peito é um corcel
Numa lua de papel
Em desenho circular

É uma mala de senhora
Tão cheia de tudo e de nada
Onde me custa encontrar

20110809

Fugir e Amar

Um chão que nos foge dos pés
Uma paisagem que nos treme nos olhos
Um mundo que não nos cabe nas mãos

Uma dor que nos chega
Uma palavra que nos parte
Um sorriso que nos morre

Uma voz abafada na garganta
Um olhar desfocado de cor
Um sentimento preso na pele

Uma ausência forçada
Uma estrofe falida
Uma ferida imunda

Uma boca faminta
Uma janela fechada
Uma tela deserta

Um abandono que mata
Uma flor de vida pisada
Um desrespeito que é faca

Um vento de nortada
Uma bomba perdida
Um grito de rajada

Um rol infinito
Um mundo enlouquecido
Um desamor a céu aberto

Fugir é imperativo
Escapar ao perigo que nos espreita o canto
É hora de calcorrear a vida mostrando que ela também é amar



20110607

Às Vezes Há Nevoeiro

Às vezes há nevoeiro
Cerrado
Ou semidenso
Intransparência branca
Como seda de um lenço
Que acoberta vales
E montes
Ribeiros e fontes
Sonega ao olhar
Um pedaço de horizonte
É um manto
Uma parede
Um silêncio uma sede
Folha de papel em branco
Um braço que não se estende
Uma mão que não se sente
Uma luz que não se acende
Um eco que não se entende
É o sol que não se abre

20110507

As Tuas Mãos

As tuas mãos
As tuas mãos na minha pele
As tuas mãos na minha pele são-me
São-me as tuas mãos
Na minha pele
Calor
Calor do meio dia
Calor do meio dia à meia noite
As tuas mãos na minha pele são-me calor
Amor
À meia noite as tuas mãos
Na minha pele
São-me
Amor
Amor da meia noite
Amor da meia noite ao meio dia
São-me as tuas mãos
Na minha pele
Amor
Amor à meia noite
Calor
Calor de toda a noite
Calor de toda a noite até ser dia
As tuas mãos
São-me as tuas mãos
São-me as tuas mãos na minha pele
Calor
Amor
São-me pouco
Tudo e nada
E ainda mais
As tuas mãos na minha pele
Amor
Oh!
São-me calor...

20110223

Um Ar

Um rebanho de ovelhas e cordeiros a pastar
Um negro corvo passeia-se no meio da vegetação
O sol que incide em todos os seres e os faz brilhar
A água do campo a espelhar o sol em oração
Um bando de passarada miúda pousa no relvado
Levanta voo o corvo até ao canavial
O vento na folhagem a dar a dar
A roupa a corar no estendal
E o corvo que mostra o seu grasnar
As laranjeiras carregadas de laranjas apetitosas
O gato que afia as unhas no pilar
O cão deitado em cima da sua casota
E os sentidos afinados a esta peregrinação
Há um ar de Primavera no ar
.

20110118

Escuta

O verde prateado do lago
Manso e quebrado
Onde mergulho os meus olhos
Quais asas na brisa pousadas
Solta silêncios alados
Ecos perdidos soprados no sol
Que flores amarelas de insectos pousados
Perfumam de cor e vida e calor
A voz cala-se às reentrâncias
Da luz ao bordejar das margens
Os sons repousam
E é o silêncio que se faz verbo
Escuta
Sssschhiiu!